Arquivo de junho \14\UTC 2007

especulação

de vez em sempre

quase desapareço

de tanto me lembrar

que sou um homem

e tenho um preço

chorume

esqueça as besteiras

que eu falei sem pensar

não precisava ser tão

duro assim contigo

deixei de ser

meu coração

e virei meu umbigo

vou me roer de remorso,

tristeza e dor

pois sei que o ciúme

é só o chorume do amor

o mesmo

nunca mais serei o mesmo

e vivo a esmo

minha nova condição

nasci natimorto

fui crescendo, amorfo

e me tornei assim

assado

sorrindo, meio culpado

toda vez

todo errado

sem saber o que dizer

sou o que sou

e o que não sou

deixo pra lá

que é pra não

me confundir

esse negócio de existir

me é bastante complicado

o cão do real

a realidade

ferida em combate

é um cachorro que late

mas não morde

a mediocridade é sempre

a mesma vencedora

e nos coloca na masmorra

toda vez que dizem um “ai’

é pau,

é pedra,

é povo

contra povo

é fazer outra faísca

e começar tudo de novo…

Davi e Golias

O homem

diante da Natureza

 criou a ciência

e a religião

O homem

diante do Absurdo

namorou com a Destreza

e se casou com a Ilusão

cais (sobre fotografia de Angelo Cuissi)

deixe pra se preocupar

com os perigos

do alto-mar

quando for marujo

enquanto houver infância

haverá um cais

pescoços

pescoços, gravatas,

me deixem em paz!

 não quero mais

jogar com vocês

o destino joga

dados e laços

eu procuro

meus espaços

em pleno cativeiro,

eu, inteiro,

sem abrir mão

das minhas metades

passo meus dias

sentindo saudades

passo tardes

que ardem

e noites

de açoite

que me levam

à madrugadas

sagradamente

embriagadas

eu, poeta minúsculo,

não sou de nada