Poema de sete faces (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
 

 

 

Um dos mais sérios e cortantes poemas da língua portuguesa. 

Um poema quando é bom é bem mais que um poema.  

 

1 Response to “Poema de sete faces (Carlos Drummond de Andrade)”


  1. 1 Will janeiro 12, 2007 às 2:22 pm

    Não dá pra deixar de citar a clássica do Casseta…

    Mundo, mundo, vasto munda
    Se eu me chamasse Raimunda
    seria feia de cara
    mas boa de rima.


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Angelo Cuissi em (quem sabe um dia) viramos…
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