Arquivo para janeiro \30\UTC 2007

ressaca

 

me reinvento, lento,

numa tarde de domingo

e o que sobra de mim

um gato qualquer

enterraria sorrindo

despedida

 

sinto sua falta

que já nem sente

 

quem sabe um dia,

meio de lado,

ainda olho pra frente

 

enquanto isso 

viver a vida

será ainda me

despedir do presente

Os tristes – Helena Kolody

 

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?

 

 

Ricardo Guilherme Dicke

 

Ricardo Guilherme Dicke é um premiado e desconhecido escritor mato-grossense, incensado por Jorge Amado, Guimarães Rosa, Gláuber Rocha e até Hilda Hilst.

Sua obra magna, Madona dos Páramos, é comparada ao Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Talvez pela intensa experiência linguística e pela oralidade popular-poética altamente inspiradora.

Estou lendo a Madona dos Páramos e não consegui parar de pensar numa das frases mais belas desse livro, transcrita abaixo:

 

“Neste silêncio que ficou, late o coração como um cão infinito”

 

Meus caros, isso não é pra qualquer um; muito embora tenha a ver com todos nós.

Sábado

Falemos, pois, da desesperança, esse sentimento que muito espera e nunca alcança.

E falemos através da poesia do Angelo Cuissi:

 

 

De tanto amanhã
só nos sobrou
ontem

Pablo Moses no Odisséia

 

Mais uma do poeta-jornalista se aventurando por um show de reggae jamaicano no Teatro Odisséia, RJ.

Está no Portal da MatrizOnline com as certeiras fotos de Rafael Andrade.

Segue o link

http://www.matrizonline.com.br/teatroodisseia/arquivos/2007/01/so_o_reggae_tir.php?codMenu=4

Poema de sete faces (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
 

 

 

Um dos mais sérios e cortantes poemas da língua portuguesa. 

Um poema quando é bom é bem mais que um poema.