amor em tempos muito estranhos

Foi assim que aconteceu. Eu estava ali no bar de sempre, com os amigos de
sempre, quando ela passou e sorriu. Engasguei com a batata frita e quase
derrubei o chope. Nem percebi que parei de falar e deixei uma história que
contava pela metade. Todo mundo estava atento e ficou esperando pelo
complemento da minha idéia, que, naquele momento, deixava de ter qualquer
importância.
O mais importante era ela, e a seleção brasileira, as últimas eleições e o
futuro da humanidade eram só um detalhe. Onde ela pisava, nasciam flores.
Ela se comunicava com os pássaros e o sol reservava para ela seus raios mais
luminosos, num gesto de reverência. Perguntei ao porteiro do prédio de onde
ela tinha saído e ele disse que não a conhecia, mas já tinha visto a menina
por ali outras vezes. Provavelmente, não se tratava de uma moradora. Não
consegui prestar atenção em mais nada naquele dia, naquela semana, nem
naquela vida.
Voltei ao bar de sempre, com os amigos de sempre, e ela não mais apareceu
com seus passos de flores e o sol não reverenciou mais a ninguém. Continuei
trabalhando, dormindo e tentando encontrar aquela garota e o seu sorriso.
Cheguei a pensar que tudo não passara de uma alucinação, mas o porteiro
também tinha visto. Será que ela também torcia pro Fluminense? Que besteira,
se fosse preciso eu torceria até pro Bangu. Será que ela ia gostar da minha
mãe? Aliás, quem precisa de mãe numa hora dessas?
Os meses foram passando e meus amigos começaram a se preocupar comigo,
dizendo que eu precisava me alimentar melhor, fazer exercícios e arranjar
uma namorada. Sabia que eles estavam certos em se preocupar, só que eu nada
podia fazer. Tinha que resolver outras coisas, era uma questão de
prioridade. Comecei a me tornar desinteressado no trabalho e meu rendimento
caiu. Até me chamaram pra conversar, mas eu não entendia mais nada do que me
falavam. Nem aos jogos do Fluminense eu ia mais.
Até que um belo dia, belo mesmo, não por mera força de expressão, eu me
embriagava no bar de sempre quando ela saiu do prédio. Arregalei os olhos e
saí atropelando mesas e garçons até conseguir alcançá-la, já na pracinha.
– Ei, ei, você aí!!!
Ela se virou e eu quase derreti com seu olhar. Tinha muito o que dizer, mas
só me lembrei de:
– Qual seu nome?
Eu balançava ao sabor dos ventos de tão bêbado, enquanto esperava pela palavra mágica, o nome
da mulher que seria minha esposa e companheira, mãe de meus filhos e por
quem eu seria eternamente fiel e amoroso, na alegria e na desgraça.
– Marcelo.
Fiquei até sóbrio.
– Desculpa, Marcelo. Pensei que fosse outra pessoa.
O Marcelo foi embora e eu ainda fiquei um tempo sentado no banquinho da
praça, bastante confuso. Não se tratava só de moralismo ou caretice, mas é que
Marcelo também era o meu nome.

2 Responses to “amor em tempos muito estranhos”


  1. 1 Aline novembro 7, 2006 às 4:16 pm

    Será que ele era tricolor tb? Provável. 🙂

  2. 2 renata novembro 15, 2006 às 10:59 am

    é impressão minha ou esse conto é meio antiguinho?
    tenho impressão de já ter lido…
    muito bom, aliás!
    beijinho


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