Arquivo para outubro \30\+00:00 2006

no segundo turno

 

e agora, joão?

josé já era

meteu o pé

amor em tempos muito estranhos

Foi assim que aconteceu. Eu estava ali no bar de sempre, com os amigos de
sempre, quando ela passou e sorriu. Engasguei com a batata frita e quase
derrubei o chope. Nem percebi que parei de falar e deixei uma história que
contava pela metade. Todo mundo estava atento e ficou esperando pelo
complemento da minha idéia, que, naquele momento, deixava de ter qualquer
importância.
O mais importante era ela, e a seleção brasileira, as últimas eleições e o
futuro da humanidade eram só um detalhe. Onde ela pisava, nasciam flores.
Ela se comunicava com os pássaros e o sol reservava para ela seus raios mais
luminosos, num gesto de reverência. Perguntei ao porteiro do prédio de onde
ela tinha saído e ele disse que não a conhecia, mas já tinha visto a menina
por ali outras vezes. Provavelmente, não se tratava de uma moradora. Não
consegui prestar atenção em mais nada naquele dia, naquela semana, nem
naquela vida.
Voltei ao bar de sempre, com os amigos de sempre, e ela não mais apareceu
com seus passos de flores e o sol não reverenciou mais a ninguém. Continuei
trabalhando, dormindo e tentando encontrar aquela garota e o seu sorriso.
Cheguei a pensar que tudo não passara de uma alucinação, mas o porteiro
também tinha visto. Será que ela também torcia pro Fluminense? Que besteira,
se fosse preciso eu torceria até pro Bangu. Será que ela ia gostar da minha
mãe? Aliás, quem precisa de mãe numa hora dessas?
Os meses foram passando e meus amigos começaram a se preocupar comigo,
dizendo que eu precisava me alimentar melhor, fazer exercícios e arranjar
uma namorada. Sabia que eles estavam certos em se preocupar, só que eu nada
podia fazer. Tinha que resolver outras coisas, era uma questão de
prioridade. Comecei a me tornar desinteressado no trabalho e meu rendimento
caiu. Até me chamaram pra conversar, mas eu não entendia mais nada do que me
falavam. Nem aos jogos do Fluminense eu ia mais.
Até que um belo dia, belo mesmo, não por mera força de expressão, eu me
embriagava no bar de sempre quando ela saiu do prédio. Arregalei os olhos e
saí atropelando mesas e garçons até conseguir alcançá-la, já na pracinha.
– Ei, ei, você aí!!!
Ela se virou e eu quase derreti com seu olhar. Tinha muito o que dizer, mas
só me lembrei de:
– Qual seu nome?
Eu balançava ao sabor dos ventos de tão bêbado, enquanto esperava pela palavra mágica, o nome
da mulher que seria minha esposa e companheira, mãe de meus filhos e por
quem eu seria eternamente fiel e amoroso, na alegria e na desgraça.
– Marcelo.
Fiquei até sóbrio.
– Desculpa, Marcelo. Pensei que fosse outra pessoa.
O Marcelo foi embora e eu ainda fiquei um tempo sentado no banquinho da
praça, bastante confuso. Não se tratava só de moralismo ou caretice, mas é que
Marcelo também era o meu nome.

economic fast

lua lua lua

sorriso do gato de Alice

se você não me sorrisse

a noite seria ainda mais triste 

no elevador

desci à rua mascando possibilidades

me tornei impossível

ali entre o terceiro

e o quarto andar

o possível era tão pouco

que nem cheguei a tentar…

e a bandeira era tanta

que a velhinha que

vinha comigo

desejando o térreo

me olhou de banda,

possível e exata,

a desconfiar:

me tornara impossível

ali entre o terceiro

e o quarto andar

rio vermelho

o homem pesca

a dor

em si mesmo

o mar

pensamento leve:

Somos orientes-médios disfarçados de cordeiro.

(minha mesmo)

 

 

O homem é o lobo do homem.

(parece que o autor é um romano chamado Plauto, mas o Hobbes andou usando)

uma besteira aí

hoje tudo vai mais fácil

fingi que não vi o tempo

nem senti seu perfume

passando por mim

 

a tarde seguiu simples

sem anginas ingênuas

angústias argutas

e outras imolações

 

a noite veio

e se não fosse a cerveja…

 

o cidadão em promoção

tudo é bom pra mim 

mulher, cerveja, capim

eu sou apenas um rapaz

latindo em americano 

por favor, me deixem em paz

minha cabeça: 

quem dá mais?   

proesia inversa

O poeta se vê perante, operando a página em branco. Do

branco que fora, um fórum sem quórum, desvairado. De

repente, sozinho. “A noite lá fora”, ainda não existe pra

mim. Meu pensamento se esvai num vôo que nem volta.

A terra, firme, me espera. Me demoro em mim. Até

quando esperará? Eu, em mim, desconverso. Sei o que

sou: inverso.

o Bom Selvagem (o domingo, sempre o domingo)

Nem eu sabia que dia seria aquele. Nenhuma cor, nenhum temor. O cheiro era de domingo, mas o calendário dizia terça-feira. Por que acordei sozinho? Mas eu não seria mesmo sozinho? A TV dizia que a felicidade era geral, com seus sorrisos e tragédias isoladas. Tudo era assim, abrupto, sem razão. Ninguém encaixava as peças, só as espalhava pelo tabuleiro. Eu dormira tentando encaixá-las. Acordei de ressaca e com o gosto singular do meio-fio na boca.

Lá pela tarde, liguei pra ela. Não lembrava seu nome, apelei pro “gatinha”. Não conseguimos nos entender, estávamos distantes, embora morássemos perto. Havia também, e me preocupava bastante, o problema dos dialetos. Em nosso país poucos se entendiam perfeitamente. Desligamos sem saber direito o que houve. Eu, pelo menos.

Desci e perguntei ao porteiro que dia era aquele. Ele sorriu e disse:”Hoje é dia da final do estadual!”, e me deu um tapinha nas costas, enigmaticamente cúmplice. Decidi beber uma cerveja no pé-sujo em frente, os bêbados sempre eram os mais sinceros. Chegando lá, acenei para o sujeito do balcão, que devolveu o gesto simultaneamente. Foi então que espirrei, e ele achou que seria educado espirrar também. Tive que esperar ele assoar o nariz enquanto limpava os copos, em uma atitude tão ingênua que a classificaria como irrepreensível. Se Rousseau bebesse naquele bar, me daria um tapinha nas costas e apontaria: “Aí, viu?! Esse aí que é o tal do Bom Selvagem…”

Por lá ninguém dizia nada. Todos observavam a TV com aquele brilho estranho nos olhos. Mais uma daquelas tragédias inexplicadas e isoladas, que nada têm a ver com o nosso querido resto. Pedi uma cerveja gelada, qualquer marca. Bebi aquela e mais quatro, em silêncio, respeitosamente. Flashes ao vivo nos deixavam dentro da ação, talvez os mais sensíveis pudessem mesmo sentir as facadas, só que isso era privilégio de poucos. Filhos matam pais desde os tempos de Sófocles, por que o espanto?

Os tempos eram outros, agora as tragédias eram consumidas como picolés, não eram mais imortalizadas. Tentei desviar o assunto, mas nada poderia ser mais interessante do que a certeza da nossa incompetência e desperdício ao vivo e a cores. Meu papo alienígena era rejeitado pelos bêbados locais. Saí de fininho antes que apanhasse.

Descobri que era domingo. O trânsito era diferente, os ônibus eram poucos. As famílias passeavam pelas ruas arborizadas e tudo estava em paz. Passei no mercado, comprei uma garrafa de uísque barato e, sabe-se lá porquê, me deu vontade de ouvir blues.


Comentários

Angelo Cuissi em (quem sabe um dia) viramos…
Juliana em
Dhyogo Henrique em
mabru em
Angelo Cuissi em moeda