Francamente

O homem primitivo estava muito ocupado garantindo sua sobrevivência para sentir crises existenciais. Morria de medo das forças da natureza, o céu poderia cair sobre sua cabeça a qualquer momento. A coisa foi evoluindo, construímos grandes impérios e passamos a Idade Média com medo de Deus e suas maldições eternas. Ainda éramos ignorantes o bastante para nos entediar.
O homem barroco vivia em conflito entre suas duas naturezas: espiritual e física. Dessa existência dividida, saíram belos poemas, esculturas e romances.
O escravo negro trazido da África vinha pra América e aqui curtia o banzo, a saudade de casa. Chegava a comer terra de tanta saudade dos seus. Estava fora do seu lugar e, desse sentimento, nasceria o blues, os spirituals, o gospel e metade da música ocidental.
O homem romântico vivia na deprê do amor idealizado e não comia ninguém. A vida era diferente do ideal, a gostosinha da cidade casava com o ricaço e neguinho morria de amor, todo rasgado por dentro. Mais uma vez: belos poemas, a subjetividade florescia. Sofro, logo existo.
O homem racional e moderno se angustiava ao tentar explicar o mundo, tudo era científico. Libertos de Deus, procuramos o progresso, a evolução. Era preciso ser absolutamente moderno e as vanguardas se encarregavam de elevar os padrões, movidos principalmente pela angústia, que segundo Heidegger “era o começo de toda filosofia”.
O homem existencialista, esmagado pelo absurdo da uma existência falida, viveu as grandes guerras mundiais num mundo cinza e sem perspectiva. Tudo tinha um ar meio romântico e criativo, a ponto do Sartre, vesgo e feio, passar o rodo em geral e até recusar o Nobel. Grande época para sofrer e produzir.
O homem pós-moderno se descolou do trilho da História (que História?ela não acabou?), as ideologias se esvaziaram, o sonho acabou e o mundo virou esse enorme deserto cheio de possibilidades e sem nenhum assunto ou projeto que consiga nos unir. Nós, o auge da evolução e do progresso até então, chegamos, no máximo, a ter uma crisezinha emo que não nos leva a nada enquanto escutamos nossos Ipod´s.
Francamente.

Anúncios

2 Responses to “Francamente”


  1. 1 juliana portella setembro 24, 2006 às 6:53 am

    cara, vini , esse é bom demais!
    sabe quando alguem fala coisas que vc sempre quis dizer? então , essa é a grande sacação da criação, vc dizer o que muitos gostariam ,mas não tem a sensibilidade para expor de forma tão poética. os pensamentos voam, mas o máximo que consegui até hoje foi escrever de amor da forma mais piegas possível!
    agora sou leitora assídua dos teus escritos!
    grande beijo!

  2. 2 Angelo outubro 9, 2006 às 11:12 pm

    “Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto”.
    Nelson Rodrigues.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s




Comentários

Angelo Cuissi em (quem sabe um dia) viramos…
Juliana em
Dhyogo Henrique em
mabru em
Angelo Cuissi em moeda
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: