Arquivo para setembro \25\UTC 2006

GLOBANALIZAÇÃO

eu, recém-formado,
entro com a bunda
na suruba do mercado

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um poema não se escreve com guache

todos os poemas do mundo
já foram escritos
como não escrevê-los
para não repeti-los?

ter um filho natimorto
não é motivo de alegria
então por que seria?

vítimas da pretensão
poetas menores dão
seu máximo pra
durar uma semana

kamikazes e homens-bomba
cheios de amor-próprio
soltam seus estalinhos
pelas ruas do Leblon
enquanto derradeiras borboletas
batem suas asas
e não provocam nada
nem uma brisa safada

deus me livre desse
destino muquirana
um narciso cita versos
como um gato que se lambe
mas nem sabe:

um poema não se escreve
com guache
se escreve com sangue.

hamlet de boteco

não me lembro de você
como queria me lembrar
só me lembro como
queria te esquecer
nada posso fazer
a não ser permanecer
nesse eterno e solitário
ser ou não ser

seremos felizes

Claro que seremos felizes. Nem que seja nas fotografias e nos sorrisos que não serão mais sinceros. Nossa felicidade será maior e mais evidente do que a felicidade em geral, pois será nossa e estaremos livres e as pessoas precisarão saber disso.
Beberemos mais que todos, seremos sempre mais divertidos, sem cansar nunca de demonstrar o que não somos, mas parecemos intensamente. Com o chão sob os pés e o céu sobre as cabeças, desconheceremos limites e nos aventuraremos pelo desconhecido da rotina e do vazio. Mas não estaremos sozinhos, de forma alguma! Ao nosso lado teremos figurantes encenando um interesse fugaz, gente diferente do habitual, do manjado, e você, talvez mais do que eu, brilhará pela noite como um cometa e passará por outros céus, riscando o infinito de outras vidas.
Improvável, não assistirei ao espetáculo. Estarei ocupado sentindo a Dor maiúscula do fracasso, sem, no entanto, descuidar das fotografias e dos sorrisos. De alguma forma, estaremos juntos nisso.

ÉDIPO, O FURA-OLHO

Édipo foi o primeiro e o maior fura-olho de quem se tem notícia. Matou o pai, depois comeu a mãe e, como se não bastasse, acabou por furar seus próprios olhos num ato de plena realização desesperada de suas habilidades. Ninguém foi mais longe do que ele em certo sentido. Daí o paradigma.

Francamente

O homem primitivo estava muito ocupado garantindo sua sobrevivência para sentir crises existenciais. Morria de medo das forças da natureza, o céu poderia cair sobre sua cabeça a qualquer momento. A coisa foi evoluindo, construímos grandes impérios e passamos a Idade Média com medo de Deus e suas maldições eternas. Ainda éramos ignorantes o bastante para nos entediar.
O homem barroco vivia em conflito entre suas duas naturezas: espiritual e física. Dessa existência dividida, saíram belos poemas, esculturas e romances.
O escravo negro trazido da África vinha pra América e aqui curtia o banzo, a saudade de casa. Chegava a comer terra de tanta saudade dos seus. Estava fora do seu lugar e, desse sentimento, nasceria o blues, os spirituals, o gospel e metade da música ocidental.
O homem romântico vivia na deprê do amor idealizado e não comia ninguém. A vida era diferente do ideal, a gostosinha da cidade casava com o ricaço e neguinho morria de amor, todo rasgado por dentro. Mais uma vez: belos poemas, a subjetividade florescia. Sofro, logo existo.
O homem racional e moderno se angustiava ao tentar explicar o mundo, tudo era científico. Libertos de Deus, procuramos o progresso, a evolução. Era preciso ser absolutamente moderno e as vanguardas se encarregavam de elevar os padrões, movidos principalmente pela angústia, que segundo Heidegger “era o começo de toda filosofia”.
O homem existencialista, esmagado pelo absurdo da uma existência falida, viveu as grandes guerras mundiais num mundo cinza e sem perspectiva. Tudo tinha um ar meio romântico e criativo, a ponto do Sartre, vesgo e feio, passar o rodo em geral e até recusar o Nobel. Grande época para sofrer e produzir.
O homem pós-moderno se descolou do trilho da História (que História?ela não acabou?), as ideologias se esvaziaram, o sonho acabou e o mundo virou esse enorme deserto cheio de possibilidades e sem nenhum assunto ou projeto que consiga nos unir. Nós, o auge da evolução e do progresso até então, chegamos, no máximo, a ter uma crisezinha emo que não nos leva a nada enquanto escutamos nossos Ipod´s.
Francamente.

DESTROÇOS

poemas rabiscados em pedaços
de destroços de mim
talvez uma ode ao
nosso remorso ou
qualquer outro troço

saudade, sim
daquelas frias
que dóem nos ossos

bêbado, de novo
espalho na noite
outros destroços